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O Perigoso Espelho: O Narcisismo Político na Era Digital Angolana

Notícias Imparciais de Angola

Desde a antiguidade, poetas como Ovídio já alertavam sobre os perigos da vaidade excessiva. Em suas 'Metamorfoses', a trágica história de Narciso, um jovem de beleza sem par que se apaixonou perdidamente pelo próprio reflexo e definhou até a morte, serve como um poderoso arquétipo. No mundo contemporâneo, dominado pela Era da Informação, essa lenda encontra um eco preocupante na esfera política, onde o brilho da imagem muitas vezes suplanta a substância da ação. Em Angola, sinais claros de um narcisismo crescente no Executivo têm levantado questionamentos sobre a prioridade dada aos resultados concretos em detrimento da comunicação performativa e da autopromoção.

Do Mito Antigo ao Fenômeno Moderno: A Vaidade em Xeque

A figura de Narciso, que se consumiu ao contemplar sua própria imagem na água, culminando no nascimento de uma flor em seu lugar, simboliza a autodestruição causada pelo excesso de egocentrismo. Esta metáfora ressoa particularmente forte no cenário político atual, onde a visibilidade e a percepção pública se tornaram moedas de alto valor. A busca incessante por validação através de uma imagem cuidadosamente construída pode desviar o foco da verdadeira essência do serviço público: a entrega de resultados tangíveis para a população. A era digital, com suas plataformas de disseminação instantânea, potencializa esse comportamento, criando um palco para a exibição que muitas vezes mascara deficiências subjacentes.

A Ascensão dos 'Narcisos Digitais' na Gestão Pública Angolana

No contexto angolano, observa-se que membros do Executivo, especialmente os mais jovens e próximos ao Presidente João Lourenço, têm feito uso intensivo das redes sociais para cultivar uma imagem de trabalhadores incansáveis, populares e competentes. Diariamente, suas jornadas de campo são documentadas por câmeras de televisão ou telemóveis, transformando atos rotineiros de gestão em espetáculos midiáticos. Essa estratégia, no entanto, parece mais voltada para a criação de uma ilusão de trabalho do que para a comunicação transparente de conquistas efetivas, desviando o foco do que realmente importa para o cidadão-eleitor: o impacto real e positivo em suas vidas.

Entre o Brilho Superficial e a Realidade do Cidadão

A febre narcisista se manifesta em uma miríade de detalhes: desde a exibição de um estilo de vida ostentoso, com fatiotas italianas, óculos de sol de marca e relógios caros, até a partilha de exercícios físicos e festas privadas. Essa performance digital busca impressionar e, por vezes, encobrir uma percepção de ineficácia ou despreparo técnico. No entanto, essa ostentação é uma afronta à difícil condição socioeconômica enfrentada por muitos angolanos, que anseiam por soluções concretas e não por espetáculos de vaidade. Tal comportamento acaba por desmascarar uma superficialidade que confunde cargo com competência e visibilidade com mérito, gerando uma desconexão perigosa entre a elite política e a base eleitoral.

A busca incessante por aplausos e a filmagem de interações com cidadãos ou funcionários, transformadas em conteúdo para as redes sociais, revelam uma prioridade deslocada. Antigamente, a máxima 'quem não trabalha não come' regia os valores sociais; hoje, o exibicionismo nas plataformas digitais parece ser a nova forma de validação para alguns no Executivo. Este foco na imagem, em detrimento de uma gestão séria e de resultados práticos, não apenas infla o ego de quem o pratica, mas também alimenta a revolta política da população, que vê suas necessidades prementes serem ignoradas em favor de uma narrativa digital.

O Perigo do Reflexo: Imagem Versus Trabalho Concreto

Exibir trabalho nas redes sociais pode ser comparado a praticar caridade filmada para consumo público: um gesto que, embora possa ter boas intenções, perde sua autenticidade e se torna contraproducente quando a intenção primordial é a autopromoção. A bandeira social ou política erguida a partir de tal exibicionismo é, no fim das contas, inútil e moralmente questionável. O que realmente importa para a nação são os resultados concretos de um trabalho sério e comprometido com o Estado angolano, e não a forma como esse trabalho é refletido ou encenado no ambiente digital. A substância deve sempre prevalecer sobre a forma, e a eficácia da gestão pública não pode ser medida em 'curtidas' ou 'partilhas'.

O uso abusivo da imagem pessoal, especialmente em cargos de alta responsabilidade, é como um narcótico: pode gerar uma dependência e, tal como um bumerangue, voltar-se contra quem o pratica. A história de Narciso é um eterno aviso: perder-se no próprio reflexo leva a um fim isolado e estéril. A má gestão da imagem, quando a vaidade supera o propósito, inevitavelmente acarreta consequências negativas para a credibilidade e a legitimidade de qualquer governante. A verdadeira grandeza emana do serviço desinteressado e da transformação positiva da realidade, não da magnificação de si mesmo no espelho digital.

Fonte: https://www.club-k.net

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