No palco do Festival Fronteiras do Pensamento, em uma reverberação amplificada pelo programa Inteligência Orgânica, as vozes potentes de Katiuscia Ribeiro e Eliane Marques emergiram como um vendaval intelectual, propondo uma revisão radical dos pilares que sustentam a compreensão ocidental de inteligência e humanidade. Longe dos cânones acadêmicos tradicionais, as pensadoras gaúchas lançaram um desafio direto às certezas estabelecidas, convidando a uma profunda reflexão sobre a origem e o propósito do conhecimento e da própria existência.
O Colapso da Razão Ocidental e o Mito da Humanidade
Em um dos momentos mais impactantes de sua participação, Eliane Marques desferiu um golpe contra o que muitos consideram um dogma: o conceito de 'humanidade'. Segundo a pensadora, essa construção, gestada no Iluminismo, funcionou como uma ferramenta de segregação, traçando uma linha artificial entre aqueles considerados 'humanos' e os que poderiam ser desumanizados ou mesmo aniquilados. Complementando essa desconstrução, Katiuscia Ribeiro diagnosticou o esgotamento do modelo civilizatório ocidental, atribuindo ao racionalismo cartesiano do 'penso, logo existo' uma parcela significativa do adoecimento social contemporâneo. Em contraponto, ela defendeu o resgate da sensibilidade e da intuição como o verdadeiro caminho para a cura, sintetizado na máxima 'sinto, logo existo'.
A Sabedoria dos Corpos: Inteligência Além dos Livros
Para Ribeiro e Marques, a verdadeira inteligência não reside primariamente nos corredores das universidades ou nas páginas dos livros didáticos. Elas argumentam que o saber genuíno floresce nos corpos e nas práticas diárias de figuras muitas vezes marginalizadas, como cozinheiras e lavadeiras, cujas vidas e cujos ensinamentos edificam o tecido social que a elite insiste em menosprezar. Essa perspectiva resgata a ancestralidade e a experiência vivida como fontes primordiais de conhecimento, que, ao invés de serem meramente teóricas, são intrinsecamente ligadas à sustentação da comunidade e à transmissão de valores essenciais.
Desmascarando a História: O Legado Negro do Rio Grande do Sul
Um dos focos centrais da análise das pensadoras reside na denúncia de um apagamento histórico sistemático, especialmente no que tange ao Rio Grande do Sul. Elas revelam que o território gaúcho, frequentemente apresentado sob uma ótica europeia e colonial, possui uma rica e profunda herança preta e quilombola. Essa narrativa oficial, que busca neutralizar a influência e a presença africana na formação da região, é confrontada e desmantelada por Ribeiro e Marques, que insistem na visibilidade e reconhecimento desse legado fundamental para a compreensão da identidade brasileira.
O Futuro Pela Ancestralidade: Críticas à Modernidade
Expandindo suas críticas à contemporaneidade, as autoras não pouparam a 'sociedade do like', que preza pela superficialidade e validação externa, nem o 'sequestro da maternidade', frequentemente transformada em um fardo solitário para as mulheres. Longe de depositarem a esperança na salvação tecnológica, Ribeiro e Marques apontam a ancestralidade como o farol para o futuro. Elas sustentam que, em meio a uma sociedade que percebem em ruínas, a fé inabalável no Direito e na Razão como pilares de redenção demonstra uma profunda desconexão com as verdadeiras necessidades e caminhos para a reconstrução.
As reflexões de Katiuscia Ribeiro e Eliane Marques, reverberadas no Inteligência Orgânica, não são apenas um exercício intelectual, mas um convite urgente a repensar as bases de nossa civilização. Ao desvelarem as fissuras nos conceitos de humanidade, inteligência e história, elas propõem uma revolução epistemológica ancorada na experiência, na ancestralidade e na revalidação dos saberes marginalizados. O 'xeque-mate' na 'farsa da humanidade', como intitula a discussão, ecoa como um poderoso chamado para uma nova forma de sentir, existir e construir o mundo.
Fonte: https://tecnologia.ig.com.br
