A psicóloga e professora Flávia Moreno, reconhecida por sua atuação na Secretaria de Educação de Barueri e em fase de conclusão de um pós-doutorado, levantou um alerta contundente sobre os perigos da imersão digital na primeira infância. Em sua participação no programa 'Inteligência Orgânica', Moreno trouxe à tona uma preocupação crescente: o impacto do uso excessivo de celulares por cuidadores na formação da personalidade das crianças. Segundo a especialista, a ausência de um olhar atento e recíproco pode estar subtraindo algo fundamental do desenvolvimento infantil, uma verdadeira “alma” da conexão humana.
O 'Triângulo Desfocado' e a Constituição da Personalidade
A professora Moreno introduziu o conceito de “triângulo desfocado” para descrever uma cena cada vez mais comum: cuidadores, ao amamentar ou ninar um bebê, desviam o olhar do filho para o aparelho celular. Este desvio, que pode parecer inofensivo à primeira vista, é apontado como um fator prejudicial à constituição da personalidade infantil. A falta de um “investimento de valor” através do olhar profundo do adulto durante momentos cruciais de conexão prejudica o desenvolvimento da criança, que, ao crescer, pode buscar essa validação a qualquer custo, moldando comportamentos e relações futuras de forma deficitária.
Cultura e Educação: Lições de uma Pesquisa Intercultural
Expandindo sua análise, Flávia Moreno compartilhou descobertas instigantes de sua pesquisa intercultural, que comparou o desenvolvimento infantil entre Brasil e Portugal. Os resultados revelaram que as crianças brasileiras tendem a se destacar nas habilidades socioemocionais, uma possível consequência da nossa cultura de maior informalidade e interação. Em contraste, os pequenos portugueses apresentaram melhor desempenho no aspecto cognitivo, reflexo de currículos escolares mais estruturados e rígidos. Esta comparação sublinha a complexidade dos fatores culturais e pedagógicos na formação integral dos indivíduos, evidenciando que ambos os modelos possuem virtudes e carências.
Desafios Docentes e a Necessidade de Flexibilidade Cognitiva
A discussão não se limitou à esfera familiar, abordando também o ambiente educacional. Flávia Moreno fez uma crítica à “vaidade docente”, que, segundo ela, impede muitos professores de reconhecerem a necessidade de apoio diante do crescente burnout e dos desafios impostos por uma nova geração. As crianças de hoje já nascem como protagonistas das decisões familiares, demandando abordagens pedagógicas distintas daquelas propostas pelo antigo “modelo de escola-fábrica”. A psicóloga enfatizou a importância de “desaprender para continuar aprendendo”, convidando pais e educadores a abraçarem a flexibilidade cognitiva como ferramenta essencial para lidar com as complexidades da educação contemporânea.
Em um mundo cada vez mais conectado, as reflexões de Flávia Moreno são um chamado urgente à conscientização sobre a qualidade da interação humana na infância. Seus insights oferecem uma bússola valiosa para navegarmos os desafios da era digital, garantindo que o desenvolvimento pleno de nossas crianças seja priorizado acima de tudo, resgatando a essência da conexão e do olhar que verdadeiramente nutre a alma.
Fonte: https://tecnologia.ig.com.br
